CAPA COMER E BEBER BEM
16
nov

A Valorização do Produto e do Produtor Local

Fui despretensiosamente assistir ao jogo do Galo em um buteco aqui em BH. BH, considerada a cidade mundial dos butecos. Estava acompanhada do meu irmão e de um casal de amigos. Pedimos uma Backer Pilsen e uma porção de filé com fritas. Eu não sei por que raios o filé e as fritas estavam nadando em molho inglês. Batatas fritas, pra mim, deveriam ser sequinhas, crocantes e saborosas.

Meu manifesto aqui não é em repúdio ao bar, ao atendimento ou por mais batatas fritas sequinhas. Vejo frequentemente o descaso com a comida de buteco nos estabelecimentos e isso me preocupa. Raros são os lugares que encontro bebida em temperatura ideal, comida saborosa, com tamanho ideal e com preço justo, isso fora o atendimento de qualidade.

Outro ocasião fomos a uma reunião em um bar e pedimos uma porção de filé ao molho gorgonzola que estava lindamente no cardápio por quarenta e um Temeres. A foto, meramente ilustrativa, claro, nos fez pensar que o que pedimos serviria três pessoas com fome. Quando o prato chegou à mesa, a singela cumbuquinha de cinco centímetros de diâmetro e cinco míseros pedaços de carne me assustou. Isso porque eu ainda não tinha visto as três fatias de pão de sal para acompanhar. Chega a ser ridículo e vergonhoso o que muitos donos de bares e restaurantes fazem para lucrar ao extremo.

E o raio gourmetizador que não para, gente? O que é isso? Qual a diferença de comer um churros daquele tiozinho da esquina e do quiosque gourmet do shopping? É que o do shopping tem ingredientes selecionados? O tamanho é maior? Nada disso! A única diferença é o preço. Só de usar a palavrinha mágica “gourmet”, o preço triplica, mas a qualidade ou a singularidade que o nome pede nem sempre aparecem.

Em 2009 foi divulgada uma pesquisa sobre a relação entre dinheiro e felicidade. “Nós compramos coisas para nos fazer felizes e ter sucesso. Mas isso funciona apenas por um tempo, pois objetos novos são excitantes no início, mas depois nos adaptamos a eles.” explica o Dr. Thomas Gilovich, professor de psicologia em NY. Para ele, comparando bem materiais às experiências percebeu-se que, ao longo do tempo, a satisfação pela compra dos bens desceu, ao ponto que a com a experiências subiu. “Você pode realmente gostar de algo, e pensar que parte de sua identidade está ligada a tal coisa, mas, mesmo assim, eles permanecem separados de você. Por outro lado, o que foi vivido se torna parte de você. Nós somos a soma total das nossas experiências”, ressalta.

O movimento Support Your Local Beer nos EUA é bem forte. Beber cerveja fresca e de um estabelecimento próximo é melhor do que correr risco de beber cervejas que podem chegar com suas características comprometidas. Por aqui o movimento Apoie a Cerveja Local vem ganhando força. Em algumas cidades beber cerveja local é mais barato, em outras mestres cervejeiros criam receitas exclusivas para quem for visitar a fábrica. Isso ajuda a garantir a qualidade da sua cerveja e o pão nosso de cada dia de toda a cadeia produtiva.

 APOIE A CERVEJA LOCAL (4)

Por isso a importância de valorizarmos bares e restaurantes que se preocupam muito mais do que com básico. Assim como dar valor aos bares e restaurantes que se preocupam com os consumidores de cerveja artesanal, que oferecem uma carta razoável, que a cerveja sempre esteja em temperatura ideal, que exista uma consultoria que faça o papel correto na hora da escolha das harmonizações e principalmente na valorização da cerveja local.

Não é só culpa dos estabelecimentos não se preocuparem com as experiências. Você também é responsável. Preocupe-se em investir seu suado dinheirinho em lugares que valem o investimento.

Vou encerrar com um texto do meu amigo, o chef Zito Cavalcante:

“Repetindo aqui para os amigos cervejeiros uma discussão que faço questão sempre de desenvolver nos bares e grupos de Whatsapp. Não adianta gastar mais pra fazer parte de um grupo de consumo consciente de cerveja, da bebida feita a mão pelo pequeno produtor, que luta pra sobreviver em um cenário de grandes cervejarias, está em dia com uma produção sustentável, pureza de receitas, conexão com o público, carrega barril para feiras e mais feiras, mas chegar a noite pedir um fast food, com todos seus conservantes, corantes, estabilizantes, aromatizantes, e política escravocrata. Cerveja também é gastronomia! E estamos todos conectados! Essa consciência tem que ser transferida. Faça feira na feira! Fica aqui meu apelo.”

Nosso país é muito grande, nosso estado e nossa região muito rica. Não podemos nos tornar reféns de marcas que não se importam com o consumidor e de como ele é único. A cultura da valorização do produto e do produtor local deve ser fortalecida com orgulho e pelo prazer de comer bem.

Um abraço!

Por Márcia Guimarães

16.11.16

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